//Morro do Piolho (Guarulhos)

Morro do Piolho (Guarulhos)

MORRO DO PIOLHO: da construção do Aeroporto Internacional de Guarulhos ao crescimento de uma comunidade
A comunidade existe há mais de 30 anos e seus moradores são marcados pela exclusão social e pelo abandono do poder público, enquanto o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos se desenvolveu em menos de 10 anos de existência.

Texto baseado no TCC de Lucy Tamborino

Diariamente, os moradores do Morro do Piolho, no Jardim Presidente Dutra, admiram o decolar dos aviões do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro, visível em cada um dos 604 domicílios da comunidade[1]. Esse é um dos poucos contatos da população do morro com a ideia de ascensão desde 1970, década de seu “nascimento”, de acordo com historiador Elton Soares[2].

De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação[3], a área habitada no Morro do Piolho corresponde a aproximadamente 73 km2 e é fruto da ocupação de um terreno predominantemente público situado na região de Bonsucesso – no bairro Jardim Presidente Dutra, em Guarulhos –, região metropolitana de São Paulo.

O local ganhou o nome de “Morro do Piolho” devido à proximidade entre os domicílios que o compõe, o que torna o acesso difícil e faz com que pareçam transitar por ali apenas piolhos – em alusão à estreiteza.

As casas são de alvenaria e construídas verticalmente, quase grudadas umas nas outras, a maioria sem acabamento. Aquelas construídas ao lado das vielas têm quintal, CEP e número residencial oficial, o restante não tem qualquer placa de identificação, apenas o nome dado pelos moradores mais antigos – Rua Passagem 1, rua Passagem 2 e rua Passagem 3. Se alguém que não mora próximo a alguma viela precisar receber qualquer correspondência via correio é necessário repassar algum endereço de parentes de pessoas do bairro.

O acesso dos moradores se dá pelas vielas Pernambuco, Rui, Guatemala e Caio, que logo dão espaço a travessas irregulares; quanto mais se avança mais difícil ficam os passos. Ruas improvisadas vão se tornando cada vez mais estreitas. Há lugares em que só é possível passar uma pessoa por vez. A pavimentação improvisada é repleta de buracos, pedaços de pedras, canos à mostra e degraus íngremes. Um grande desafio é equilibrar-se pelas ladeiras.

Os muros das casas assumem função de corrimão. Quem mora nas regiões mais baixas convive com ruas de terra e cercadas de árvores, acumulando esgoto a céu aberto.

O aposentado Julio Viana de Alcântara Junior mora, há 19 anos, próximo a uma das vielas que dá acesso à comunidade. Ele explica que o bairro “até que tá bom” e que antes “não era assim tão aconchegante”. Em uma padaria próxima “mataram um cara dentro”, completa. “Morria muita gente”, mas “agora suave na nave”, acrescenta a esposa Fátima Fernandes de Oliveira, com que é casado há 22 anos. O 7º Distrito Policial, responsável pela região de Bonsucesso, registrou de janeiro a maio deste ano (2018), 11 vítimas, 6 tentativas de homicídios dolosos e 484 roubos[4].

Este cenário mora dentro da cidade de Guarulhos, que está entre as 15[5] maiores economias do Brasil, e ocupa a 320°[6] posição em relação ao IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal). Nele são analisados indicadores de população, educação, habitação, saúde, trabalho, renda e vulnerabilidade. O bairro onde se localiza o Morro do Piolho – Jardim Presidente Dutra – é um dos cincos núcleos básicos das lutas sociais[7] na região do Bonsucesso.

Apesar das dificuldades, a artesã Edna Campos, de 50 anos, sempre gostou de morar na comunidade e se diz “mais segura do que se tivesse no ‘Morumbi’[8]”. Edna se recorda de que as casas em 1991 eram de madeira e a energia gerada a partir de um motor era insuficiente para toda a comunidade. “Uns 10, 15 anos atrás colocaram poste. Agora tem luz”, comemora. Quando ela foi morar no morro, o acesso para sua casa era possível apenas por uma viela de pedra. A viela foi pavimentada depois que Lucia Lopes[9], líder comunitária do Morro, conseguiu doações de materiais de construção e realizou um mutirão com os moradores do bairro.
Ao contrário de Edna, TSS[10] diz não gostar de morar em comunidade. “Eu desgostei de morar aqui”. Ela e o marido, casados há 12 anos, planejam economizar e buscar outro local para viverem.
TSS morou desde pequena em comunidade e diz que a sua história é corriqueira. “Normal, tranquila, eu não estou contando nada que seja novidade. Nada que seja diferente. É o que é e pronto. Tem gente que enfeita muito. Essa é a realidade. O estudo faz muita diferença, porque se eu fosse instruída lá atrás não tinha passado a metade do que eu passei”, desabafa.

Urbanização desenfreada

As ocupações na cidade de Guarulhos são resultado de uma urbanização “desregrada” e um grande aumento populacional, segundo Ellade Imparato[11], atual presidente do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico e Diretora de Assuntos Fundiários na cidade de 2003 a 2005.

A urbanização de Guarulhos acentuou-se na década de 1950, com a construção das rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias que unem a cidade a São Paulo e ao Rio de Janeiro, desenvolvendo uma tendência para instalação de indústrias nos trechos das rodovias.

Brasil, com exceção das capitais. O inchaço populacional no Brasil como um todo “não foi acompanhado por um incremento na infraestrutura disponível, comprometendo as condições de vida oferecidas à população”, conforme explica Renata Adriana Garbossa[12], mestre em Geologia pela Universidade Federal do Paraná.

A construção do Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro foi responsável pelo ápice do desenvolvimento da cidade e a consolidação da comunidade do Piolho devido às desapropriações iniciadas no final da década de 70[13]. A decisão do local para a construção foi uma ação conjunta entre os governos federal e estadual. O municipal, embora não concordasse com a medida, não se mobilizou

Com a desapropriação para construção do aeroporto, 8 mil pessoas foram retiradas de suas casas. O território do bairro Jardim Maringá e parte de outros bairros vizinhos desapareceram. Leandro de Jesus[14], de 40 anos, mora na parte mais baixa do morro e chegou à comunidade com os pais, três irmãos e mais algumas famílias depois de a casa onde morava ser desapropriada. “Aqui era tudo mato e plantação de mandioca, banana e barro, e lá para cima tinha alguns casebres”, recorda.

Jesus conta que desde que mora no bairro só viu político aparecendo na comunidade “para prometer”. Depois da eleição, apesar das promessas, nada foi feito “não tem área de lazer, não tem nada. Esse é o nosso dia a dia no Morro do Piolho, aqui é uma comunidade que não tem nada”.

O Secretário Adjunto da Secretaria da Habitação do Município, Paulo Francisco de Almeida, faz questão de “frisar” que a comunidade Morro do Piolho está dentro do projeto de regularização fundiária, assim como “todas as áreas de Guarulhos”. Segundo o secretário, “a prefeitura vai dar o título de cartório pra cada morador da comunidade – Morro do Piolho”. Após esse título será possível à regularização, desenvolvimento das guias e de asfaltos e regularização da água, drenagem e esgoto. O projeto é “legalizar o bairro inteiro. Ele ficará totalmente legalizado e eles passam a ter vida”, explica sem afirmar qualquer data para regularização ou planejamento concreto.

Já o Departamento de Assuntos Fundiários de Guarulhos, por meio de ofício,[15] explica que “não há como afirmar sobre acesso a um plano de regularização fundiária para o local neste momento”. O Departamento esclarece que o contrato [16] responsável pela elaboração dos diagnósticos da área, conforme as exigências descritas na lei municipal de regularização fundiária [17] está suspenso.  “Não há como falar em projeto para áreas sem diagnóstico ambiental, jurídico, social e fundiários prévios”, explica o ofício.
Lucia Lopes, líder comunitária do Morro, reclama que a prefeitura “não abre para conversa” e afirma que seu desafio neste é, no mínimo, conseguir a regularização de luz e água para os moradores da comunidade. “Os moradores não pagam nem luz, nem água. Tem poucos que pagam, mas 90% não paga. Os moradores querem pagar. Vou lutar pra isso, para que alguém coloque nas redes sociais para me dar força. Porque é um direito deles, não é? Água e esgoto dos que querem pagar”, argumenta.

Em comunidades, o potencial de direitos violados “ocorre com mais frequência, especialmente em comparação com os espaços destinados à classe média”, segundo Joyce Kelly Pescarolo, doutora pelo programa de Sociologia da Universidade Federal do Paraná. Ela explica que é habitual nas comunidades “a ausência do poder público para promover instituições e medidas com o objetivo de ali promover o desenvolvimento e permitir que os habitantes gozem de direitos previstos na constituição”.

Em contrapartida, o Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro – inaugurado em 1985 com intuito de resolver o problema de congestionamento aéreo no eixo Rio-São Paulo – ganhou um novo terminal e uma segunda pista com cerca de 4 km² de extensão em menos de 10 anos de inauguração.

Direitos garantidos

A Constituição Federal de 1988 estabelece que o direito à moradia seja um direito social, e cabe à União, aos Estados e aos Municípios “promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico”[18]. A criação do Ministério das Cidades e a composição de secretarias nacionais, a partir de 2003, permitiram a elaboração de novas políticas habitacionais, resultando no ano seguinte à aprovação do Plano Nacional de Habitação (PLANHAB)[19]. O Plano traça diretrizes para articulação do estado em propostas, políticas de subsídios e apoio aos municípios na implantação de seus programas habitacionais estabelecidos no plano municipal – o PLHIS (Plano Local de Habitação de Interesse Social).

Os municípios, apesar de regidos pelo governo federal e pelo estado, passam a ter autonomia sobre a definição, condução e execução de suas políticas de desenvolvimento urbano.

Em Guarulhos, além da comunidade do Morro do Piolho, outras 699 áreas irregulares são catalogadas e congeladas pela Secretaria da Habitação, segundo Paulo Francisco de Almeida, secretário adjunto da pasta. Esse congelamento é o levantamento das áreas existentes e a aplicação de questionário socioeconômico para cada domicílio. As famílias cadastradas serão removidas para conjuntos habitacionais específicos ou receberão título do cartório de posse do terreno, garante o secretário.

A problemática habitacional em Guarulhos, região metropolitana de SP, segue uma tendência nacional. O número de brasileiros vivendo em aglomerados subnormais em 10 anos quase dobrou, passando de 6,5 milhões no ano 2000, para 11,4 milhões em 2010, distribuídos em 6.329 áreas situados em 323 municípios.

Apesar de as comunidades não serem heterogêneas, devido à diversidade em suas características físicas e condições de vida, “é comum uma situação de precariedade da infraestrutura e maior concentração de pobreza dos moradores”, elucida Encarnación Moyá, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole da USP.

Já a doutora em sociologia, Joyce Kelly Pescarolo[20], aponta que “as comunidades não representam apenas um lugar qualitativamente diferente dos outros considerados não tão precários”. A diferença geográfica é marcada por várias outras distinções que impõem aos seus moradores contínuos processos de segregação e exclusão social.

Vida no Morro

“Mas não é fácil não, viu fia! Num é brincadeira não! Tu vê o acesso como é difíci. Não tem lugar para os meninu brincar. Eu não recebo visita porque eu tenho vergonha, é triste”, assim que a cozinheira TSS, de 31 anos, destes 12 morando no Morro do Piolho, desabafa sobre sua vivência no local. Ela, que morou a vida toda em comunidade, diz que nunca teve uma vida muito fácil. Para o Piolho foi depois de casar com o marido – que chama carinhosamente de Bola.

Se “pudesse” ela teria feito tudo diferente, estudado e feito “tudo bonitinho”, confessa contando que o dinheiro da sua festa de 15 anos usou para comprar o enxoval do filho primogênito. Nessa idade, ela não visualizava outra possibilidade de trabalho a não ser fazer faxina nas casas da comunidade. O pagamento nem sempre era em dinheiro. “Sabe que é esfregar calcinha de mulher de ladrão pra dar leite pro seu filho? Com 15 anos, sai juntando bituca de maconha no chão das muié porque ia ganhar 20 reais pra comprar o leite?”

Os sacrifícios sempre foram pensando em GSS, hoje com 15 anos, chamado carinhosamente de “meu vidinha”. Quando fala do adolescente a mãe se dividi, ora fala sobre o sorrisão do menino que sonhava em ser MC, outra do roubo que lhe garantiu mais de um ano na Fundação Casa.

TSS diz ter educado e feito de tudo para que os filhos não se acostumassem a realidade do local. Uma destas tentativas, foi mudar de uma casa arejada, grande e ao lado da viela, para outra com apenas quatro pequenos cômodos com acesso mais difícil (incluindo atravessar a viela, descer uma ladeira e caminhar por becos estreitos).

Sair de manhã para deixar seus filhos na escola, na primeira casa em que morou no Morro do Piolho, significava encontrar crianças usando drogas e pessoas fazendo sexo. “É assim que funciona, e se eu deixo meus filhos verem eles vão achar que é normal”, expõe TSS.

Apesar das tentativas da cozinheira, MGSS [21] se envolveu com “amigos sem futuro” e começou a usar drogas. O menino “começou a dar trabalho” com 13 anos, fugiu de casa algumas vezes para usar droga e foi preso por roubo devido às “más companhias do morro”, explica com certo pesar TSS.

O jovem prometeu que quando saísse da Fundação Casa ia ser diferente e não ia “fumar mais”, mas a mãe ainda espera o retorno do filho para acreditar nisto. “Porque eu sou muito dessas que tem que provar pra mim. Eu nunca usei droga e nunca roubei ninguém. Acho assim, a pessoa tem que mostrar a diferença. Eu tava me culpando muito. Eu comecei a pensar comigo mesma: poxa, se eu tive tanta oportunidade pra fazer e não fiz”.

Além do filho mais velho, TSS tem outros três filhos, de 4, 9 e 11 anos. As crianças só podem sair para brincar na ONG Associação de Valorização e Integração da Comunidade (Avic), a poucos metros do Morro do Piolho. Nas ruas ao redor do morro, TSS tem muito medo. “Outro dia passou uma viatura da polícia tão rápida que o vento sacudiu as crianças”, conta.

A falta de perspectiva sobre o morro é geral. TSS não gosta do local, da convivência dos filhos na comunidade e quando tem tempo livre para fazer algo diferente prefere sair do morro. Levar os filhos para passear ou visitar a mãe.

Pensa em juntar dinheiro com o marido e se mudar por conta, já que nas promessas da prefeitura não acredita mais. “Eles mentem muito. Que nem aqui o rapaz da habitação já falou que eu to em alto risco e a primeira lista que sair eu ia embora para um apartamento. Já saiu duas listas e eu não vi nada”, explica uma TSS desesperançosa.

Mesmo se fosse contemplada com um apartamento, diz que o venderia para comprar uma casa fora da comunidade. O problema de morar no Morro do Piolho vai além da moradia precária, mas se estende na realidade no local, explica TSS.“O povo pensa que apartamento ajuda. Mas não adianta você mudar da favela e a favela não mudar de você”, afirma com firmeza.

Renato Saboya, mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que a segregação não se desenvolve apenas devido à condição social, mas esta contribui para tornar as diferenças mais profundas.

A diferenciação é visível “entre os bairros, tanto no que diz respeito ao perfil da população, quanto às características urbanísticas, de infraestrutura, de conservação dos espaços e equipamentos públicos”, conclui Saboya.

Em Guarulhos, na região central “já têm equipamentos públicos. A maioria das ruas são asfaltadas, tem água, esgoto, iluminação pública, outras regiões mais periféricas já estão com carências em todos esses sentidos”, admite Jorge Taiar, secretário de Desenvolvimento Urbano da cidade, explicando que a secretaria tem como principal preocupação o desenvolvimento urbano, vislumbrando o que é melhor para a população em cada região.

A artesã Edna Campos, apesar das marcas sociais na comunidade, diz que enfrentou poucos problemas desde que mudou para o morro. Uma parede rachada e uma fossa na primeira casa que morou na comunidade – no fundo da casa da mãe. Na época, era solteira, e a renda para “para criar os filhos” conquistava passando roupa e fazendo faxina. Depois que conheceu o marido, morou ainda mais cinco anos neste mesmo cômodo. O casal só moraria em uma casa com 4 cômodos, após a mãe da artesã casar e vender a casa em que morava para ela.

Edna, parou de estudar na quarta-série do ensino fundamental, já voltou a procurar emprego depois que os filhos cresceram, mas acredita que o preconceito pelo fato de morar na comunidade pese na resposta. “Quando a gente vai fazer ficha numa firma eles não gostam de pegar, porque a gente mora na comunidade. Então tem bastante preconceito, mas a gente supera graças a Deus. A gente tem que ser o que é”. Cansada de procurar emprego, Edna hoje completa a renda da casa vendendo produtos de limpeza e artesanato.

Para Encarnación Moyá, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole da USP, o preconceito “vem do olhar de fora daqueles que nunca circulam ou circularam por essas áreas e, portanto, há um imaginário que se perpetua de que sempre são lugares de desordem e crime.”

O dinheiro para pagar os cursos para confeccionar os itens, conseguiu com o programa bolsa família. Para conseguir acesso ao projeto social do governo, contou com a orientação de Lucia Lopes. Quando as duas se conheceram, Edna, no início, achou que era mais “lábia”, mas hoje são amigas e admite que igual a ONG não existe. “Qualquer problema que eu preciso a Lucia ajuda. Ela nunca me falou não. Se eu precisar de algum alimento ela me ajuda. Qualquer pessoa que chega à ONG, não só a mim, mas como qualquer mãe que tem filhos, ela sempre gostou de ajudar as crianças.”

Mesmo sabendo que a líder comunitária sempre está disposta a ajudar prefere não incomodar, “porque dentro do Morro existem moradores que necessitam mais”, garante. Para aumentar sua renda, Edna sonha em abrir seu próprio salão de cabeleireiro, com seu filho mais velho, que está fazendo o curso junto com ela.

Nem todos os moradores do Morro do Piolho se permitem sonhar como Edna. A costureira Débora Rodrigues De Souza, de 37 anos, que mora há 7 anos na comunidade tem somente vontades e não sonhos. Pensa em fazer enfermagem, mas já não tem muita esperança de vida, explica.

Ir morar no Morro com o marido significou ter sua casa, poder escolher o que fazer e ter uma família. “Dizer que eu tinha uma família eu não tinha. Eu fazia as coisas e ia para os lugares para onde meus patrões queriam. Não tinha uma vida minha”, conclui explicando que antes achava normal viver indo aos lugares que seus patrões queriam e tendo pouco contato com a família, mas que se precisasse fazer tudo de novo não faria.

A costureira começou a morar nas casas em que trabalhava aos 11 anos. Nos primeiros empregos era doméstica em tempo integral. Limpava casa todos os dias, carregava sacola no Brás e ia em festas para cuidar dos filhos dos patrões. Depois de um tempo por indicação começou a ser cuidadora de idosos. Só parou de trabalhar quando casou e o marido, que é açougueiro, disse que não gostaria que ela trabalhasse. Hoje faz o acabamento da costura de avental médico descartável em TNT, ganhando R$7,00 o milheiro.

Além do trabalho de cozinheira, é dona de casa e cuida dos dois filhos. O mais velho, Mateus de Souza Tito, tem 5 anos e frequenta a ONG desde os 3, já que ela e Lucia se tornaram amigas.

O menino faz laços para vender e sonha em ser médico, para ganhar muito dinheiro, trabalhar limpinho e “não trabalhar sujo” como mecânico. Com o dinheiro quer ir ao shopping e comprar chocolate, conta concentrado em jogo no celular da mãe.

Outra realidade

Com a intenção de amenizar essa realidade no Morro do Piolho – marcada por falta de recursos – e de incentivar os jovens a acreditarem e conquistarem seus sonhos, a enfermeira por formação, Lucia Lopes, hoje reconhecida como líder comunitária e moradora do bairro há 30 anos, desenvolve desde 2006 trabalhos sociais voluntários dentro da comunidade.

A enfermeira, acostumada a participar como voluntária em um projeto com moradores de rua não imaginava que um dia desenvolveria sua própria ONG. A ideia cresceu dentro dela como uma dívida pelo filho estar vivo. O mais velho, então com 14 anos, teve câncer no cérebro, fez duas cirurgias e ficou em coma na UTI por mais de duas semanas. Quando voltou para casa não falava ou andava e estava careca. Lucia largou a empresa que tinha e foi cuidar dele. Começou a faculdade de enfermagem e os trabalhos voluntários no mesmo ano.

“O voluntariado é movido pelo amor e vontade sincera de mudar realidades”, explica a líder comunitária. Para ela, o projeto dentro do Morro é um legado que vai perdurar por toda sua vida e se estender por gerações, “quem conhece a minha história sabe que eu tô aqui há 10 anos, vou ficar 20, 30, se eu morrer vai ficar minha filha, meus netos e continuar o meu trabalho”.

Os primeiros passos do voluntariado na comunidade foram dados em 2006, com doações de roupas na casa dela. Ela separava, lavava e entregava aos moradores. A sobrinha, para ajudar nas doações, cedeu a garagem de sua casa. Dos improvisos dos moradores emprestando garagens virou a identidade do início de todo o projeto social. A ONG ficou em outra garagem, com muro sem reboco, só de blocos e próxima à Viela Guatemala, por oito anos. Período em que eram doados pães todos os dias, sempre às 14h. A rua lotava como “a fila do INSS”, explica Lucia. Mas, lamenta não continuar com essas doações por falta de recursos, “a prefeitura cortou o transporte do pão e eu não tinha como buscar, não tinha carro, não tinha condições, ai eu perdi o pão por isso”.

As doações com o tempo se uniram a algumas ações pontuais e outras permanentes. No primeiro caso, foram ações de saúde trazendo dentistas e enfermeiros, doações de cestas básicas, eventos em datas comemorativas como, no Natal, com entrega de presentes para as crianças, e no segundo, com um salão alugado, foi oferecida aula de capoeira, dança e recreação para as crianças da comunidade. O aluguel do salão significaria um novo avanço e a abertura da ONG – Associação de Valorização e Integração da Comunidade (AVIC), para crianças 6 a 15 anos.

O salão que iniciaria a AVIC é ao lado de uma das vielas que dá acesso à comunidade. O aposentado Julio Viana e sua esposa, Fátima, proprietários do local, hoje são incentivadores do projeto. “Tinha comentário do povo que era só H. Que ia ser mais um. Mas depois o pessoal foi vendo que nada disso, que ela realmente ela tava querendo ajudar.” conta Viana, como é conhecido. “Até hoje ela ajuda bastante gente. Todo o pessoal que mora aqui em baixo (na comunidade) ela ajuda. Passam aqui perguntando: Fátima, você viu a Lucia?”, completa a esposa. O aposentado arrisca dizer que a líder comunitária deveria se candidatar a algum cargo político e que já teria o voto dele garantido.

O salão alugado pelo casal se tornou pequeno graças ao volume de pessoas que buscam o projeto, e Lucia procurou o padre da igreja Santa Maria Gorete. Na conversa, o padre cedeu o templo da igreja. “O padre não me cobrava nada, nem água, luz, nada.”, explica entusiasmada. A associação passou então a funcionar no salão alugado e no templo da igreja católica. O que significava um crescimento e uma nova meta.

O sonho de crescimento aconteceu em um domingo de 2014. Um homem foi até o portão da casa da diretora da Associação oferecendo um terreno com uma casa, pois haviam dito a ele que Lucia gostaria de alugar para expandir o projeto social. Ele explica que sentiu um misto de felicidade e desespero, “ele perguntou se eu estava querendo alugar. Quando ele falou o valor eu quase desmaiei”, relata extasiada. O valor estava mais alto do que ela poderia imaginar, mas após negociações aceitou a proposta.

No outro dia, a AVIC ganharia sede própria e um espaço maior. Atendendo hoje cerca de 60 crianças, de segunda a sexta com: capoeira, dança, teatro, recreação e atendimento social e psicológico. As atividades são alteradas conforme a equipe de voluntariado disponível. Cada aluno tem seu prontuário com RG, matrícula na escola e carteira de vacinação. O objetivo principal da associação é um trabalho antidrogas, incentivo à educação e mostrar uma realidade diferente da comunidade às crianças.

Para Priscila Thais Ribeiro Pinto, psicóloga do projeto desde o início de 2017, o importante é incluir as crianças “para não deixar elas na rua e entrar na drogadicão, porque muitas coisas podem acontecer por causa do convívio, para eles aquilo já é o natural”. Ela conta que é comum sair na calçada ver pessoas usando drogas e crianças, que não estão enquadradas socialmente com um pai e uma mãe, vendendo drogas e bala no farol. Muitas crianças “falam que quando crescerem querem ser policiais para matar bandidos, porque para eles o bandido esta atrapalhando a vida deles. Outras querem ser o bandido, porque ele tem carrão e uma casa, então para quê vão trabalhar, sendo que ser bandido é mais fácil?”, conta Priscila.

As crianças são influenciadas pelo contexto social em que vivem, segundo a psicóloga. Uma situação que a marcou foi quando uma menina chegou triste e contando para ela que pegou uma faca para acertar o padrasto que batia na sua mãe frequentemente. Mas Priscila explica que para a menina ela só estaria defendendo a mãe, que já dormia com uma faca debaixo do travesseiro.

Para trabalhar com as crianças, a psicóloga e uma assistente social voluntária fazem visitas em suas casas com o intuito de compreender como é o ambiente familiar. Estas visitas nem sempre são bem vistas pelos pais “porque, às vezes, nós falamos na nossa forma técnica e muitos pais não aceitam, eles acham que é uma agressão para eles, acham que não é assim e que estamos falando demais”.

As atividades na AVIC e o acompanhamento das famílias são os principais atendimentos. A vontade de Lucia é fazer ainda mais pelas famílias, mas ela se vê limitada pela falta de capital. “Eu não tenho verba, não tenho parceria. Eu queria fazer um projeto de doar cestas básicas para famílias por alguns meses e depois ela tem que arrumar seu caminho e se virar. Eu tenho esse projeto, mas não consigo manter porque não é sempre que entra alimento, vamos doando para os que mais precisam”, desabafa.

Junto à prefeitura, a líder comunitária conseguiu algumas mudanças como limpeza de áreas do bairro, guia de ruas e coleta de lixo na comunidade. Outras por iniciativa própria, como fazer uma viela improvisada e retirar uma espécie de lixão, formado pelos próprios moradores, em uma esquina próxima ao Morro do Piolho.

Apesar de articular o projeto social sozinha, ela recebe doações de amigos, moradores, alunos de faculdades e de empresas como a Gol [22] e Flexform [23], que contribuem com eventos e com ações para doação de leite e de cestas básicas. “Quando eu estou desesperada peço para as empresas. Eu mando (por e-mail), a gente não tem lanche para as crianças, me ajuda ai”, desabafa Lucia.

De 2014 até 2017 poucas foram as mudanças significativas nos projetos sociais. “Não cresço muito porque eu não me vendo politicamente e não faço nada errado. Então tudo pra  mim acontece no tempo de Deus mesmo. Às vezes é rápido, outras demora, mas acontece no tempo de Deus. Porque eu não tenho recursos. Já passei fome na minha casa. Está faltando no projeto eu vou lá e compro. É amor mesmo”.

Mesmo não avançando como gostaria, a líder comunitária se sente mais forte com os pequenos avanços. “Toda vez que eu penso em desistir, Deus manda um anjinho. Um ano que eu quis parar, mandou a Flexform. A última vez que eu quis parar agora, mandou a Gol”.

Encarnación Moyá, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole da USP, acredita que organizações sociais podem alterar a realidade dos moradores de comunidades e atuar como pontes para fora de sua realidade – mediante nova informação, novas relações. “A presença de organizações sociais podem trazer, por exemplo, mudanças nas redes sociais – à medida que vínculos de outra natureza passam a existir”, conclui.

Lucy Tamborino é graduada em Jornalismo pela UNG e colaboradora no grupo Faz Diferença? do facebook

Notas de rodapé:

[1] Aglomerados subnormais do IBGE – Censo 2010. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/agsn/>. Acesso em: 10 out. 2017, às 20h04.

[2] Historiador formado pela FIG. Autor do livro Revelando a História do Bonsucesso e Região (2010), Editora – Noovha América, em pareceria com a Secretaria de Educação de Guarulhos e obras individuais sobre a história da cidade.

[3] Dados de 2008 – Último levantamento oficial realizado pela Secretaria da Habitação.

4] Dados Estatísticos do Estado de São Paulo – Estatísticas 2018. Disponível em: <http://www.ssp.sp.gov.br/Estatistica/Pesquisa.aspx>. Acesso em: 26 jun. 2018, às 08h04.

5] Dados do IBGE – Tabela1 .Disponível em: <https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/pibmunicipios/2010_2013/default_xls.shtm> . Acesso em 28 out. 2017, ás 22h.

[6] Ranking Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil – Acesso em:  <http://www.atlasbrasil.org.br/2013/pt/ranking>. Acesso em 01 set. 2017, às 20h.

[7] O termo núcleo básico de lutas sociais refere-se a uma população ativa que se organizou na luta por moradia, transporte, asfalto, escolas, água encanada, esgoto, atendimento à saúde, entre outros serviços urbanos após a grande urbanização de Guarulhos – ALMEIDA ET AL ( 2010)

[8 Alusão ao bairro nobre da cidade de São Paulo (capital).

[9] Líder comunitária do Morro do Piolho, diretora da Associação de Valorização e Integração da Comunidade e da Creche Emília Xavier.

[10] Iniciais do nome de moradora entrevistada da comunidade, mas solicitou que sua identidade fosse omitida (questões particulares).

[11] A Regularização Fundiária em Guarulhos e a Produção de Habitação para a População de Baixa Renda – soluções e dificuldades encontradas. 3º Congresso Brasileiro de Direito Urbanístico. Recife, 2004.

Disponível em:

<http://ibdu.org.br/eficiente/repositorio/Projetos-de-Pesquisa/congressos-e-seminarios/recife-2004/147.pdf>. Acesso em: 01 set. 2017, às 8h.

[12] GARBOSSA, Renata Adriana; SILVA, Rodolfo Dos Santos. O processo de produção do espaço urbano: impactos e desafios de uma nova urbanização.1 ed. Curitiba: InterSaberes, 2016. p. 262.

[13] OLIVEIRA, A. F. de. et al. Revelando a história de Bonsucesso e região: NOSSA CIDADE, NOSSOS BAIRROS!. 1. ed. Guarulhos: Noovha América, 2010.  p. 120.

[14] Morador do morro desde 1987, após a desapropriação para construção da segunda pista Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos – Governador André Franco Montoro. Hoje está desempregado, mas já foi office boy, porteiro e segurança. Gostaria de mudar-se da comunidade para um lugar melhor e pretende um dia ser eleito vereador para ajudar a comunidade.

[15] Ofício nº 004\2017 referente a dados solicitados na Secretaria da Habitação.

[16] Contrato Federal Pro-Moradia DI, Modalidade de Estudos e Planos.

[17] Lei nº 7355, de 22.12.2014 –  Dispõe sobre medidas voltadas à Regularização Fundiária no Município de Guarulhos.

[18] Art. 23 Inciso IX da Constituição Federal de 1988.

[19] Criado no governo Lula com intuito de nortear as políticas habitacionais no país.
[20] PESCAROLO, Joyce Kelly.Sociologia urbana e a violência.1. ed.Curitiba: InterSaberes, 2017. p. 286.

[21] Filho de TSS (moradora entrevistada da comunidade, mas solicitou que sua identidade e das pessoas mencionadas na entrevistas fossem omitidas (questões particulares).

[22]  Companhia aérea brasileira, que realiza mais de 900 voos por dia, fundada em 2001.

[23]  Indústria de poltronas para escritório, em Guarulhos, fundada em 1965.